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A Arte Portuguesa no Mundo

“Em 19 de janeiro de 1929, após ter regressado do Brasil, Alves Cardoso concedeu à imprensa portuguesa uma entrevista, que, da primeira à última frase, é um hino de amor e deslumbramento pela nossa terra (Brasil). (…)E toda entrevista teve essa corda majestosa de homenagem, este tom de apologia, igual aos acordes máximos de um hino.
Agradecemos a Isabel Meneses, residente em Portugal e neta do pintor, por nos haver proporcionado um fac-símile da citada notícia, que reproduzimos na íntegra.
A ortografia foi atualizada segundo as regras vigentes no Brasil. A ortografia foi atualizada segundo as regras vigentes no Brasil.”
Paulo Victorino

Nas expressões de Alves Cardoso, ao falar-nos ontem do Brasil, havia um frenético estilo de apoteose. O ilustre artista, que o meio cultíssimo da capital federal brindou com o mais solícito acolhimento, bendizia o ensejo que lhe proporcionara a consagração brasileira e o contato com a primeira sociedade fluminense.
- Agradeço-lhe – disse-nos – a oportunidade que me oferece para agradecer na imprensa portuguesa a esse Brasil inolvidável, a essa terra de maravilha, de vida pujante, de gloriosíssimo futuro, a hospitalidade que ela me dedicou, o carinho com que, a todo o momento, quis enaltecer os meus recursos.
- Demorou-se lá mais tempo do que calculara, não é assim?
- Fui para uma estadia de dois meses. Pois estive no Rio durante seis. Ah! E tinha razões para me demorar ainda mais. Mas os compromissos em Portugal…
- Encargo artístico de grande urgência?
- A decoração do anfiteatro da Maternidade Alfredo Costa, a qual constará de um tríptico, de um grande retrato do patrono saudoso e de dois outros painéis, com alegorias do assunto humaníssimo. O tríptico figurará «O triunfo da Maternidade». Essa obra fora-me encomendada antes da partida para a capital brasileira. Já vê que urgia agora dar conta dela…
- Que tempo levará a conclui-la?
- Um ano. Em seguida repousarei numa aldeia remansosa; mas descansarei trabalhando, habituando de novo a minha visão ao ambiente da nossa terra. É que os meus olhos vêm deslumbrados da imponência do Rio, da sua luz de foco, do seu cenário, da urbe portentosa!
- Advínhamos nos seus projetos seguintes uma volta ao Brasil…
E o notável retratista do Grupo Silva Porto pôs uma rapidez febril, quase que precipitação na sua resposta:
- Ah! Mas sim; mas sim… Venho de lá com esse plano. E hei de visitar S. Paulo e outras cidades onde não pude dirigir-me desta vez. De resto, aceitei encomendas de novos trabalhos. Fui para pintar alguns retratos; tive de pintar muitos outros. Ao mesmo tempo efetuei a minha exposição, pois levara vários quadros para o efeito.
- Trabalhou sempre…
- Ininterruptamente. Meti as minhas faculdades num afã de que nunca me julgara necessitado…
- …Quando calculara ter de se domar a languidez da bela vida sul-americana…
- Puro engano, meu amigo… Há uma soberba energia na existência da formosa capital do Brasil… De manhã, pelas oito horas, já eu tinha no ateliê os meus clientes para posar. E eram, na sua maioria, pessoas de qualidade, vivendo nos meios de requintado e opulento mundanismo. Tanto brasileiros como portugueses.
- E traz incumbências de mais pintura…
- Aceitei-as, sim. Não podia ter tido mais grata consagração de trabalho.
– A imprensa carioca falou, por várias vezes, da notável galeria que v. deixou na grande cidade…
- Os jornais festejaram-me também com magníficas demonstrações de elogio. Guardo uma lembrança muito querida dos jornalistas fluminenses. Todos foram lisonjeiros para a minha obra, que conheciam, para o Grupo Silva Porto, a que me honro de pertencer, e para a coleção de retratos que lá pintei – na sua maioria de vultos de grande relevo social.
- As minhas impressões acerca do Brasil são, portanto, de um profundo contentamento. O coração encheu-se-me de ternura, sempre que tive de dizer a minha admiração por esse país de triunfo em que se caminha para um futuro brilhantíssimo e em que as belas artes têm condições e elementos que fazem o orgulho de uma civilização. Exultei com a convivência que mantive, durante a metade de um ano, com um meio de tão alta categoria, de tão sugestiva animação, um meio em que realçam todos os frenesis de uma vida moça, plena de seiva e certa da vitória. Aos meus colegas brasileiros, cujo convívio me enobreceu, não cessei de mostrar a mais sincera admiração pela sua mocidade inalterável, pela sua fé e pelo seu talento, ao mesmo tempo que não lhes ocultei a comoção despertada pelas suas homenagens à arte portuguesa. Vibrei com sinceridade e entusiasmo. É assim que tem de se amar o Brasil quem como eu o viu num deslumbramento…

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